Confrontos em funeral de cantor na Etiópia provocam dois mortos

Pelo menos duas pessoas morreram hoje em confrontos entre o Exército e pessoas que tentavam assistir ao funeral de um cantor pertencente ao maior grupo étnico da Etiópia, cujo assassinato, na segunda-feira, instigou protestos por todo o país. De acordo com um funcionário do principal hospital de Ambo, localidade onde se realizou o funeral, nove pessoas foram baleadas, tendo duas morrido já sob custódia médica. “Hoje houve uma operação ligada ao funeral. Nove pessoas foram baleadas, duas das quais morreram no hospital”, disse um profissional de saúde que falou sob anonimato à agência France-Presse. Centenas de pessoas reuniram-se hoje na localidade de Ambo, no centro do país, para o funeral do cantor Hachalu Hundessa, cujo assassinato desencadeou protestos que provocaram a morte a mais de 80 pessoas. Segundo a agência noticiosa, outros tentaram assistir ao funeral, mas foram repelidos por soldados que abriram fogo sobre estes. A fonte hospitalar referiu que os feridos relatam que os soldados ocuparam todas as estradas em Ambo antes do funeral, de forma a limitar o número de participantes. A versão foi corroborada por Filenbar Uma, membro da Frente de Libertação Oromo, um partido da oposição. Hachalu Hundessa, considerado a voz do povo oromo durante os anos de protestos antigovernamentais que levaram o atual primeiro-ministro, Abiy Ahmed, ao poder em 2018, foi morto a tiro na segunda-feira à noite na capital etíope, Adis Abeba. O funeral, transmitido em direto por várias estações de televisão da Etiópia, aconteceu na localidade de Ambo, a cerca de cem quilómetros da capital, onde Hachalu Hundessa tinha nascido. De acordo com a AFP, cerca de 500 pessoas estiveram presentes num campo de futebol para a realização de uma cerimónia fúnebre “curta e sóbria”. O caixão foi então transportado para uma igreja próxima. No total, cerca de 90 pessoas morreram vitimadas pela violência que se seguiu ao assassinato do cantor, com as autoridades etíopes a reconhecerem que uns foram mortos pelas forças de segurança, enquanto outros faleceram durante confrontos comunitários. A organização não-governamental Human Rigts Watch (HRW) alertou hoje que a resposta do Governo da Etiópia aos protestos pela morte do cantor Hachalu Hundessa arrisca arrastar o país para uma "crise profunda". Em resposta aos protestos, o Governo cortou os serviços de Internet em todo o país, o que, segundo a HRW, amplificou "as preocupações de que as pessoas estão a ser silenciadas" e de que os "abusos dos direitos humanos e a violência comunitária", que abalaram o país no ano passado, "não estão a ser tratados". "A polícia afirma ter efetuado detenções relacionadas com a morte de Hundessa, mas as respostas do Governo aos manifestantes correm o risco de incendiar tensões de longa data", alertou Laetitia Bader, diretora da HRW para o Corno de África. O apagão da Internet está também a impossibilitar o acesso à informação sobre os mortos e feridos nos protestos, mas a HRW disse que há relatos credíveis de violência, que apontam já para a existência de mais 80 mortos na região de Oromia e de outros 10 em Adama, onde um edifício governamental foi incendiado. Hachalu Hundessa era considerado a voz do povo oromo, o maior grupo étnico da Etiópia, e o compositor desempenhou um papel importante na onda de protestos que levou à ascensão do atual primeiro-ministo Abiy Ahmed, também de etnia oromo, ao poder em abril de 2018. A ascensão de Abyi à chefia do Governo pôs fim a décadas em que a coligação governamental multiétnica foi dominada por líderes da minoria tigray. Até então, os oromo queixavam-se tradicionalmente da marginalização política e económica. Abiy Ahmed, 43 anos, impulsionou grandes reformas na Etiópia, o segundo país mais populoso de África, incluindo o fim do estado de emergência decretado pelo seu antecessor, amnistiou milhares de prisioneiros políticos, legalizou os partidos da oposição e comprometeu-se a realizar eleições. Em 2019, recebeu o Prémio Nobel da Paz pela sua contribuição para pôr fim ao conflito entre a Etiópia e a Eritreia. No entanto, o primeiro-ministro tem sido criticado por não conseguir resolver alguns dos problemas de raiz do Estado etíope, nomeadamente as tensões étnicas que têm causado ondas de violência e feito da Etiópia o segundo país com mais deslocados do mundo.

Confrontos em funeral de cantor na Etiópia provocam dois mortos
Pelo menos duas pessoas morreram hoje em confrontos entre o Exército e pessoas que tentavam assistir ao funeral de um cantor pertencente ao maior grupo étnico da Etiópia, cujo assassinato, na segunda-feira, instigou protestos por todo o país. De acordo com um funcionário do principal hospital de Ambo, localidade onde se realizou o funeral, nove pessoas foram baleadas, tendo duas morrido já sob custódia médica. “Hoje houve uma operação ligada ao funeral. Nove pessoas foram baleadas, duas das quais morreram no hospital”, disse um profissional de saúde que falou sob anonimato à agência France-Presse. Centenas de pessoas reuniram-se hoje na localidade de Ambo, no centro do país, para o funeral do cantor Hachalu Hundessa, cujo assassinato desencadeou protestos que provocaram a morte a mais de 80 pessoas. Segundo a agência noticiosa, outros tentaram assistir ao funeral, mas foram repelidos por soldados que abriram fogo sobre estes. A fonte hospitalar referiu que os feridos relatam que os soldados ocuparam todas as estradas em Ambo antes do funeral, de forma a limitar o número de participantes. A versão foi corroborada por Filenbar Uma, membro da Frente de Libertação Oromo, um partido da oposição. Hachalu Hundessa, considerado a voz do povo oromo durante os anos de protestos antigovernamentais que levaram o atual primeiro-ministro, Abiy Ahmed, ao poder em 2018, foi morto a tiro na segunda-feira à noite na capital etíope, Adis Abeba. O funeral, transmitido em direto por várias estações de televisão da Etiópia, aconteceu na localidade de Ambo, a cerca de cem quilómetros da capital, onde Hachalu Hundessa tinha nascido. De acordo com a AFP, cerca de 500 pessoas estiveram presentes num campo de futebol para a realização de uma cerimónia fúnebre “curta e sóbria”. O caixão foi então transportado para uma igreja próxima. No total, cerca de 90 pessoas morreram vitimadas pela violência que se seguiu ao assassinato do cantor, com as autoridades etíopes a reconhecerem que uns foram mortos pelas forças de segurança, enquanto outros faleceram durante confrontos comunitários. A organização não-governamental Human Rigts Watch (HRW) alertou hoje que a resposta do Governo da Etiópia aos protestos pela morte do cantor Hachalu Hundessa arrisca arrastar o país para uma "crise profunda". Em resposta aos protestos, o Governo cortou os serviços de Internet em todo o país, o que, segundo a HRW, amplificou "as preocupações de que as pessoas estão a ser silenciadas" e de que os "abusos dos direitos humanos e a violência comunitária", que abalaram o país no ano passado, "não estão a ser tratados". "A polícia afirma ter efetuado detenções relacionadas com a morte de Hundessa, mas as respostas do Governo aos manifestantes correm o risco de incendiar tensões de longa data", alertou Laetitia Bader, diretora da HRW para o Corno de África. O apagão da Internet está também a impossibilitar o acesso à informação sobre os mortos e feridos nos protestos, mas a HRW disse que há relatos credíveis de violência, que apontam já para a existência de mais 80 mortos na região de Oromia e de outros 10 em Adama, onde um edifício governamental foi incendiado. Hachalu Hundessa era considerado a voz do povo oromo, o maior grupo étnico da Etiópia, e o compositor desempenhou um papel importante na onda de protestos que levou à ascensão do atual primeiro-ministo Abiy Ahmed, também de etnia oromo, ao poder em abril de 2018. A ascensão de Abyi à chefia do Governo pôs fim a décadas em que a coligação governamental multiétnica foi dominada por líderes da minoria tigray. Até então, os oromo queixavam-se tradicionalmente da marginalização política e económica. Abiy Ahmed, 43 anos, impulsionou grandes reformas na Etiópia, o segundo país mais populoso de África, incluindo o fim do estado de emergência decretado pelo seu antecessor, amnistiou milhares de prisioneiros políticos, legalizou os partidos da oposição e comprometeu-se a realizar eleições. Em 2019, recebeu o Prémio Nobel da Paz pela sua contribuição para pôr fim ao conflito entre a Etiópia e a Eritreia. No entanto, o primeiro-ministro tem sido criticado por não conseguir resolver alguns dos problemas de raiz do Estado etíope, nomeadamente as tensões étnicas que têm causado ondas de violência e feito da Etiópia o segundo país com mais deslocados do mundo.