Dengue na Madeira apontado como exemplo das consequências do aquecimento global

O efeito na saúde pública resultante das alterações climáticas é um dos três grandes desafios atuais do Serviço Nacional de Saúde a exigir medidas imediatas, defendeu o ex-diretor-geral da Saúde Francisco George.   “Temos que ter em conta esta...

Dengue na Madeira apontado como exemplo das consequências do aquecimento global
O efeito na saúde pública resultante das alterações climáticas é um dos três grandes desafios atuais do Serviço Nacional de Saúde a exigir medidas imediatas, defendeu o ex-diretor-geral da Saúde Francisco George.   “Temos que ter em conta esta nova realidade e não a podemos ignorar. Não pode haver adiamentos, é agora ou nunca”, disse o especialista em saúde pública, sustentando: “são decisões que o Governo da República tem que tomar desde já”. Além das alterações climáticas há dois outros grandes desafios: as doenças crónicas resultantes do processo do envelhecimento e a resistência das bactérias aos antibióticos, afirmou Francisco George, em entrevista à agência Lusa a propósito dos 40 anos do SNS, celebrados a 15 de setembro. Sobre as consequências do aquecimento global, apontou o aparecimento de “mais cancros”, sobretudo da pele, em particular o melanoma, e de doenças que se transmitem por picadas de mosquitos como aconteceu com o dengue na Madeira. O “duplo envelhecimento” que Portugal enfrenta, com cada vez menos crianças e cada vez mais idosos, é um problema que “todos conhecem, que é sempre falado, mas que exige medidas que não podem ser atrasadas”. O médico defendeu que há um conjunto de medidas que têm de ser tomadas, tendo em conta que há 320 mil portugueses com mais de 85 anos e que a probabilidade de terem uma doença é muito alta, uma situação que também exige uma resposta social. Há um conjunto de problemas e doenças crónicas associados ao perfil demográfico da população que é diferente dos que existiam há 40 anos e que obrigam a uma adaptação do SNS a esta nova realidade. “Um hospital há 40 anos tinha camas para doentes agudos, agora tem que ter camas preparadas para receber doentes crónicos”, exemplificou. Outro problema que “tem de ser encarado de uma vez por todas” e sobre o qual “não pode haver atrasos” é “a utilização indevida, descoordenada dos antibióticos”, que “tem de acabar”. Estes medicamentos “têm de ser preservados, guardados, porque cada vez há mais bactérias que não são sensíveis aos antibióticos, que resistem”, o que faz com que muitas doenças infecciosas deixem de ser curadas. “Há muitos antibióticos, incluindo para a tuberculose, que deixaram de fazer efeito e este é um problema que surgiu nos últimos 40 anos e que tem relação com o mau uso que foi dado, até agora, aos antibióticos”, lamentou. O antigo diretor-geral da Saúde realçou ainda a importância da literacia em saúde para ajudar a população a combater estes problemas. “Mais do que os médicos e dos enfermeiros, toda a população tem que perceber que há neste momento riscos e têm que os conhecer” para os combater, disse. As pessoas, por exemplo, têm de saber que ao entrar e sair de um hospital têm de lavar as mãos ou que não podem consumir os comprimidos que sobraram do antibiótico da vizinha só porque lhe fez bem e pensam que também vão melhorar. “É preciso sabermos ler os problemas de saúde, os desafios, mas, sobretudo como corrigir esses desafios”, vincou. O atual presidente da Cruz Vermelha defendeu também que os órgãos de comunicação social deviam reduzir os espaços de análise de futebol e apostar mais em programas de informação sobre saúde. “Há um exagero de programas de análise, que por vezes até parecem análises filosóficas sobre futebol (…) não há estação nenhuma que escape a estas questões. Devíamos ter mais informação séria para debater estas questões, através dos grandes órgãos de comunicação social, que são uma fonte indispensável, insubstituível para nós lidarmos com estes problemas”, sublinhou.