Missa pelas vítimas do 20 de fevereiro: “A fé é vida” e a todos abraça

Na homilia da missa pelas vítimas do 20 de fevereiro, na Sé do Funchal, o bispo do Funchal começou por dizer que “Nós, seres humanos, destacamo-nos dos outros seres vivos existentes no mundo, entre outros factores, pelo convite (que é mandamento)...

Missa pelas vítimas do 20 de fevereiro: “A fé é vida” e a todos abraça
Na homilia da missa pelas vítimas do 20 de fevereiro, na Sé do Funchal, o bispo do Funchal começou por dizer que “Nós, seres humanos, destacamo-nos dos outros seres vivos existentes no mundo, entre outros factores, pelo convite (que é mandamento) que Deus nos faz desde o início: “dominai a terra” (Gn 1,26.28)”. Indicando que “este domínio tem sido efectivo — de tal forma que, não raras vezes, nos dá a sensação de colocar o homem no lugar do próprio Deus, e de podermos chegar à destruição do criado. Contudo, o domínio da natureza não é tal que consiga fazer-nos escapar completamente a um conjunto de forças, também elas naturais, que (não raras vezes) nos fazem tomar consciência de que comungamos dos destinos da criação, sujeitos a tantas forças adversas”. D. Nuno Brás referiu-se de um modo particular aos madeirenses, que “fizeram desta realidade (do domínio da natureza e da fragilidade inerente ao próprio homem) uma experiência constante, quase um modo de vida”. Recuando no tempo, uma referência histórica à “colonização do território, experimentámos o que significa “dominar a terra”. Se a paisagem se mostrava (então como hoje) maravilhosa, não tardou a mostrar-se igualmente difícil de conquistar. O suor, o sofrimento, a tenacidade e a esperança marcam, desde sempre, a vida do nosso povo”. Num texto de seis páginas, o bispo diocesano lembrou que no” momento em que surgem as catástrofes naturais, em particular as aluviões que, de tempos a tempos, semeiam um rasto de destruição”, estão “longe de constituírem castigo divino, as catástrofes mostram antes como estamos unidos ao mundo natural; mostram a nossa fragilidade; mostram os nossos limites. Mostram que somos criaturas. Recordam-nos que não somos Deus, nem sequer pequenos deuses”. Numa alusão ao evangelho, o bispo recordou a aflição dos discípulos, quando “de repente, levantou-se uma grande tormenta, “e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. A aflição dos discípulos (“Mestre, não Te importas que pereçamos?”) contrasta com a serenidade e tranquilidade de Jesus (“à popa, dormia com a cabeça numa almofada”). É nesta ocasião, “depois de ordenar ao vento e ao mar que amainassem”, que Jesus mostrou aos “discípulos a atitude com que eles hão-de enfrentar estas realidades naturais: “Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”. É “pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo «a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade”. O Bispo, acentuou que “a fé, a vida com Deus, a certeza de que Deus se encontra ao nosso lado, dá-nos um modo de viver que nos permite encarar de outro modo todos os obstáculos, todas as tempestades, todos os perigos”. Acrescentou, que “a fé, a vida com Deus, não nos torna sobre-humanos, mas permite-nos viver, em cada dia que passa, de um modo bem diferente: não tememos a perseguição dos homens nem os elementos naturais; não temos medo de catástrofes nem de perigos. Não porque achemos que não nos podem causar dano, a nós ou aos nossos, ou porque estejamos convencidos de que a fé constitua um qualquer escudo invisível contra as catástrofes, mas porque sabemos que nada nem ninguém nos poderá separar daquilo que verdadeiramente interessa: o amor de Deus”. O responsável católico acrescentou, “é por isso que, diante das catástrofes, não podemos deixar de cuidar uns dos outros e de, com o coração em Deus, participar no cuidado de todos e por todos, quem quer que seja. Esse, mais que qualquer outro, é o momento de mostrar como a fé é vida e todos abraçam naquele amor indestrutível”. Recordou que há dez anos a Madeira “viveu um dos mais aflitivos momentos da sua história”. o mundo assistiu ao testemunho da fé de um povo que não se deixou consumir pela angústia e desespero, mas que, entreajudando-se, e unindo esforços, foi capaz de reerguer um novo futuro, quase com a mesma rapidez com que tinha surgido a aluvião”. Na fatídica manhã de sábado, 20 de fevereiro, “Jesus estava, de um modo particular, na Madeira, com os madeirenses. Sinal disso mesmo são este crucifixo, vergado, também ele, pela força destruidora, como que partilhando o sofrimento de todo um povo; e a imagem da Senhora da Conceição da Capela das Babosas que, como Mãe, de pé, intercedia pelos seus filhos”, salienta o Bispo. “Neste dia, queremos, junto do altar do Senhor, recordar aqueles que perderam a sua vida na aluvião de há 10 anos, um dos quais funcionário desta nossa catedral. Pedimos a Deus que, no seu amor, os acolha e lhes dê a participar da sua vida gloriosa, que é a vida dos santos”, finaliza.