“Ninguém se preocupa com a sociedade do conhecimento”

Arrancou hoje o IX Congresso Internacional Red Iberoamericana de Investigación de la Calidad de Educación Superior (RIAICES), subordinado ao tema ‘Avaliação (externa) da qualidade do ensino superior e autonomia científica’, que trouxe à Região...

“Ninguém se preocupa com a sociedade do conhecimento”
Arrancou hoje o IX Congresso Internacional Red Iberoamericana de Investigación de la Calidad de Educación Superior (RIAICES), subordinado ao tema ‘Avaliação (externa) da qualidade do ensino superior e autonomia científica’, que trouxe à Região o presidente da RIAICES, Fernando Gonçalves, que introduziu no Colégio dos Jesuítas a temática, provocatória, a ‘Avaliação externa nas instituições de ensino superior portuguesas: um casamento com violência doméstica consentida?”. Manifestamente crítico, Fernando Gonçalves discursou sobre as várias “formas de matar” as universidades e o ensino superior, através do paradigma de Bolonha que, a seu ver, deixa os “professores entregues a si próprios”, sem saber o que a “aprendizagem autodirigida” ou como devem promover o papel do aluno “enquanto o principal responsável pelo seu conhecimento”. Olha para a sociedade da informação como desculpa para muitas posições pedagógicas, sendo um instrumento que pode ser vantajoso, mas perigoso em simultâneo, se for mal utilizado. O presidente da RIAICES rejeita essa sociedade da informação que, a seu ver, deve ser utilizada somente para chegar a uma outra sociedade, com a qual “ninguém se preocupa”, sendo essa a sociedade do investimento. O responsável considera ainda que os professores são “vítimas de uma realidade que contribui para adulterar o temo ‘qualidade do ensino superior’, apresentando os seguintes argumentos justificativos:   - Publicações em inglês e outros idiomas Fernando Gonçalves começou por lamentar que os docentes sejam obrigados a trocar a sua língua mãe nas suas publicações e fornecer para fins de concursos citações bibliográficas, sem especificar parecer sobre as mesmas;   - Avaliação 2004-2006? Critica ainda a aplicação de quotas de excelente em dirigentes que acabam por não ser reeleitos e ainda que o período 2004-2006 não conte para a avaliação de desempenho, contrariamente ao que se verifica em outras áreas, como a Saúde;   -Decisões sobre posições superiores O presidente da RAICES não se ficou por aí e lamentou ainda que colegas com inferiores posições nas carreiras possam decidir, em plenário de Conselhos Científicos, as práticas de colegas com carreiras superiores. Lamenta ainda que colegas que não se encontram no topo da carreira possam decidir sobre aberturas e fechos de concursos, o que pode gerar conflitos de interesses.   - Financiamento limita investigação O desenvolvimento do conhecimento sujeito às agendas e critérios alusivos a matérias de financiamento de projetos de investigação, resultando, por vezes, que os proponentes dos projetos estejam sujeitos a equipas avaliadoras com categoria profissional e posicionamento académico inferior. Além disso, a autonomia científica poderá ser abdicada em prol dos critérios de financiamento que limitam os tópicos a ser investigados, levando também a uma estrutura na qual a “descoberta do remédio para a morte só terá qualidade se for investigada”, ou seja, é rejeitada a investigação independente. Como consequência, a sua premência na carreira é limitada pela quantia de dinheiro resultante e não pela qualidade, necessidade e pertinência das suas investigações.   - Críticas à avaliação Fernando Gonçalves considera que os docentes são obrigados a participar num processo de “avaliação punitiva” que não resulta em qualquer plano formativo, ou seja, devem ser excelentes sem ter formação para o efeito; assim como alunos (com todos os problemas de dependência e/ou vingança e/ou simpatia versus antipatia) sejam avaliadores do seu trabalho, não para melhoria das suas práticas mas manutenção dos seus postos de trabalho; vêm-se ainda condicionados por gráficos divulgados por gabinetes sem qualquer propostas de melhoria, meramente descritivos; ainda no âmbito da avaliação, condena que as instituições e respetivos atores sejam avaliados por agências que não asseguram a competência provada dos seus avaliadores.   Sobre a avaliação com efeitos de seis em seis anos, aponta que muita coisa pode acontece de seis em seis anos que resulta na desmotivação profissional.   - “Meritocracia” como instrumento de gestão Referiu ainda que os docentes “são obrigados a aceitar a meritocracia como instrumento executório de justiça sem levar em conta que pode ser apenas um instrumento de gestão económica e financeira”;   30% dos portugueses com ensino superior Por seu turno, o secretário regional da Educação, Ciência e Tecnologia, Jorge Carvalho, que, à margem das temáticas anteriores, recordou quem em 1974, “quando se perspetivava o evento da Democracia” e dava-se a saída do sistema ditatorial, somente 0,6% da população portugueses possuía habilitações superiores e após quatro décadas essa percentagem subiu para 30%. “Ainda não são os dados que efetivamente desejamos, mas é o reflexo de um reconhecimento da importância das instituições de ensino superior”, declarou. O secretário acrescentou que o facto de o Governo Regional ter colocado a Ciência e a Tecnologia na mesma estrutura que tutela a Educação, e Ensino Superior, evidencia a importância dessas áreas para o desenvolvimento da Região.   “Conhecimento alavanca desenvolvimento” Já a vereadora da Câmara Municipal do Funchal, Madalena Nunes, realçou que o “conhecimento alavanca o desenvolvimento”, reconhecendo também a importância dos corredores, bibliotecas e aulas, alertou ainda para a igual ou superior importância dos intervalos, ritmos individuais, grupos de convívio e espaços culturais. Também o reitor José Carmo criticou a forma como os ciclos de estudos são avaliados, mas reconheceu a importância da acreditação dos mesmos.   Três dias de trabalhos Recorde-se que o evento decorrerá na Universidade da Madeira em três dias “de trabalho intensivo”, materializados em cinco conferências plenárias e duas mesas temáticas que reúnem sensibilidade de diferentes origens, nomeadamente, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, Equador, México, Portugal e Letónia. De acordo com a presidente da Comissão Organizadora do Congresso e docente da Faculdade de Ciências Sociais, Jesus Maria Sousa, as mesas temáticas giram em torno da avaliação externa e autonomia científica do ensino superior, incluindo três simpósios, e cerca de 45 comunicações livres - cujos resumos foram enviados de forma anónima a avaliadores que sugeriram reformulações de forma a atestar a credibilidade científica do evento académico- distribuídas por cinco subtópicos de discussão: 2) desenvolvimento profissional docente do ensino superior e formação contínua por competências; 3) avaliação da aprendizagem dos estudantes do ensino superior; 4) gestão e liderança das instituições do ensino superior; 5) o ensino superior ao serviço da comunidade.