Nobel da Literatura 2018 diz que "Internet é história contada por um idiota"

A internet e o seu excesso de informação é cada vez mais "uma história contada por um idiota, cheia de ruído e fúria", afirmou hoje a Prémio Nobel da Literatura de 2018, a polaca Olga Tokarczuk. "Diferenciou-nos, dividiu-nos, fechou-nos em...

Nobel da Literatura 2018 diz que "Internet é história contada por um idiota"
A internet e o seu excesso de informação é cada vez mais "uma história contada por um idiota, cheia de ruído e fúria", afirmou hoje a Prémio Nobel da Literatura de 2018, a polaca Olga Tokarczuk. "Diferenciou-nos, dividiu-nos, fechou-nos em pequenas bolhas individuais" e criou "uma multidão de histórias incompatíveis, se não abertamente hostis", disse a autora sobre o que poderia ser "um sonho realizado". Tokarczuk, destacada pela Academia Sueca pelo seu "imaginário narrativo que, com paixão enciclopédica representa a passagem das fronteiras como modo de vida", fez uma análise do mundo atual, em particular à saída "da emergência climática e da crise política". As duas situações "não são apenas o resultado de uma mudança de destino, mas de ações e decisões económicas, sociais e relacionadas com a visão do mundo", afirmou a Nobel da Literatura. Na habitual palestra proferida na Academia Sueca, em Estocolmo, a autora polaca abordou a literatura e as novas formas de criar narrativas. A autora, também uma ativista política e ambiental, assegurou que a ganância, a falta de respeito pela natureza ou a rivalidade sem fim "reduziram o mundo à condição de um objeto que [se pode] cortar em pedaços, usar e destruir". Olga Tokarczuk considerou que um mundo dominado por uma internet "completa e impensadamente sujeita aos processos do mercado" serve "acima de tudo, para programar o comportamento dos utilizadores", dando o exemplo do caso da Cambridge Analytica. Na política, a autora considerou que o excesso de informação pode ser "avassalador e a sua complexidade e ambiguidade dá lugar a todo o tipo de mecanismos de defesa". "Não temos as narrativas prontas, não apenas para o futuro, mas para o presente", disse, enumerando fatores como a linguagem, os pontos de vista, as metáforas e os mitos. A autora de “Viagens” mostrou-se oposta à divisão da literatura por géneros, que diz levar à "limitação da liberdade do autor" e "à reticência face à experimentação". Para Tokarczuk, a ficção perdeu a confiança dos leitores, "uma vez que a mentira se tornou uma perigosa arma de destruição maciça". A Nobel da Literatura de 2018 assinalou que a literatura é "a única capaz de aprofundar a vida dos outros seres, entender as suas razões, partilhar os seus movimentos e experienciar os seus destinos". Olga Tokarczuk disse estar convencida de que "em breve aparecerá um génio capaz de construir uma narrativa completamente diferente, ainda inimaginável".