Nomadismo digital e a liberdade a ‘full time’

Este é o sítio onde, na liberdade de escolha do espaço onde trabalhar, há um mar de oportunidades a todos os níveis. O mais difícil é ir embora. Mas na bagagem vão as experiências, as amizades e as aventuras. Pelas 9 horas da manhã, são ainda poucos aqueles que já chegaram ao ‘working place’ instalado no Centro Cultural John dos Passos. Por essa altura, há quem tenha optado por exercitar o corpo com o ‘hatha yoga’, na Estalagem da Ponta do Sol, ou quem tenha decidido começar o seu dia um pouco mais tarde, com o ‘Nomad Coffee Club’ a juntar um grupo de trabalhadores numa manhã descontraída no The Old Pharmacy. É com muito por onde escolher que se deparam os nómadas digitais que chegam à Ponta do Sol para uma temporada, de semanas ou meses, inseridos na comunidade que se gerou naquela que é a primeira vila nómada em Portugal, da qual o JM também faz parte por estes dias, à descoberta de uma nova perspetiva em relação àquele que é o modelo de trabalho que sempre conhecemos. Com o habitual clima do concelho a aquecer uma manhã calma de terça-feira, somos confrontados com a difícil tarefa de escolher entre os possíveis locais onde ‘montar’ o local de trabalho para o dia. No exterior, escolha mais sensata para os que realizam chamadas e reuniões à distância, há mesas para várias pessoas e mesas individuais, à sombra, ao sol, ou até no jardim colorido por uma pitangueira bem carregada. Para os que exigem silêncio no local de trabalho, o interior é a escolha certa. Ao todo, o centro proporciona condições de trabalho ('desktops', tomadas elétricas e, o mais importante, uma excelente ligação à internet) para cerca de cinco dezenas de pessoas em simultâneo. Uma redação improvisada Foi ao subir uma escadaria junto a escritórios existentes no Centro Cultural que encontrámos o sítio escolhido, numa varanda que, apesar de ventosa, oferece uma vista deslumbrante de 180º sobre o centro da vila. Abrir e ligar o portátil, com o telemóvel e o bloco de notas ao lado, e assim nasce uma redação improvisada. Durante uma pausa, conhecemos João Vicente, ‘creative manager’ de uma empresa de marketing digital com sede nos Estados Unidos. É natural do Rio de Janeiro e reside em Lisboa há cerca de um ano e meio. A experiência enquanto nómada digital na Madeira começou há dois meses. Quatro diferentes alojamentos depois, a aventura termina na próxima segunda-feira, partilha, confessando que “é muito difícil ir embora”, tendo sido isso mesmo que o fez adiar o regresso por várias vezes. “Tinha previsto ficar cá durante três semanas e já passaram sete. Porque toda a experiência, com todas as pessoas que conhecemos aqui, tanto ao dividir alojamento como ao fazer caminhadas pelas levadas, cria vínculos muito bons. Nós chegámos aqui sozinhos, mas no primeiro dia já conhecemos uma quantidade enorme de pessoas”, conta, sendo um aspeto positivo que se acrescenta à boa surpresa que encontrou ao nível das medidas de segurança no combate à pandemia. Fora isso, “também temos atividades profissionais, e eu já participei em ‘workshops’ maravilhosos aqui, e aprendi coisas que, inclusive, estou a implementar na minha empresa. É algo muito bom que eu levo daqui e certamente irei passar todo o conhecimento que obtive para a minha equipa”, assegura. Apesar da amargura de ir embora, há o lado positivo de criar amizade com outros nómadas, nomeadamente a possibilidade de os reencontrar noutros destinos: “Pretendo agora passar o verão em Lisboa e sei que alguns nómadas também vão para lá. Depois, quando for permitido viajar com mais segurança, quero continuar a seguir viagem para outros países”, concluiu. A primeira experiência Numa área mais escolhida para descontrair, encontramos Dorota Piačekova e Peter Pisarčík. São naturais da Eslováquia, mas quis a circunstância que apenas se conhecessem na Ponta do Sol, o destino que ambos escolheram para a sua estreia no nomadismo digital. Na Madeira desde 1 de maio e 22 de março, respetivamente, conhecerem-se numa festa realizada na Estalagem da Ponta do Sol, tornaram-se amigos, como, aliás, acontece com toda a comunidade recetiva a participar nas imensas atividades lúdicas desenvolvidas todos os dias, habitualmente logo pela manhã - antes do horário de trabalho que nem todos têm, mas que é o mais comum -, ou ao entardecer. Trabalhadora a ‘full time’, Dorota possui um contrato que permite trabalhar remotamente em países estrangeiros, sendo esta a primeira vez que saiu do país para experimentar esta nova realidade, que a surpreendeu. “Cheguei há um mês, no dia 1 de maio, e tenciono ficar durante mais dois meses. Está a ser fantástico. Não quero voltar a trabalhar do escritório nem regressar àquela situação de viver no mesmo lugar durante um ano ou mais”, afirma a eslovaca que é ‘iOS developer’ numa empresa de segurança corporativa. Após um ano “presa em ‘lockdown’”, pôde respirar de alívio e realizar, na Madeira, uma imensa variedade de atividades, partindo dos convívios da comunidade na Ponta do Sol (em que

Nomadismo digital e a liberdade a ‘full time’
Este é o sítio onde, na liberdade de escolha do espaço onde trabalhar, há um mar de oportunidades a todos os níveis. O mais difícil é ir embora. Mas na bagagem vão as experiências, as amizades e as aventuras. Pelas 9 horas da manhã, são ainda poucos aqueles que já chegaram ao ‘working place’ instalado no Centro Cultural John dos Passos. Por essa altura, há quem tenha optado por exercitar o corpo com o ‘hatha yoga’, na Estalagem da Ponta do Sol, ou quem tenha decidido começar o seu dia um pouco mais tarde, com o ‘Nomad Coffee Club’ a juntar um grupo de trabalhadores numa manhã descontraída no The Old Pharmacy. É com muito por onde escolher que se deparam os nómadas digitais que chegam à Ponta do Sol para uma temporada, de semanas ou meses, inseridos na comunidade que se gerou naquela que é a primeira vila nómada em Portugal, da qual o JM também faz parte por estes dias, à descoberta de uma nova perspetiva em relação àquele que é o modelo de trabalho que sempre conhecemos. Com o habitual clima do concelho a aquecer uma manhã calma de terça-feira, somos confrontados com a difícil tarefa de escolher entre os possíveis locais onde ‘montar’ o local de trabalho para o dia. No exterior, escolha mais sensata para os que realizam chamadas e reuniões à distância, há mesas para várias pessoas e mesas individuais, à sombra, ao sol, ou até no jardim colorido por uma pitangueira bem carregada. Para os que exigem silêncio no local de trabalho, o interior é a escolha certa. Ao todo, o centro proporciona condições de trabalho ('desktops', tomadas elétricas e, o mais importante, uma excelente ligação à internet) para cerca de cinco dezenas de pessoas em simultâneo. Uma redação improvisada Foi ao subir uma escadaria junto a escritórios existentes no Centro Cultural que encontrámos o sítio escolhido, numa varanda que, apesar de ventosa, oferece uma vista deslumbrante de 180º sobre o centro da vila. Abrir e ligar o portátil, com o telemóvel e o bloco de notas ao lado, e assim nasce uma redação improvisada. Durante uma pausa, conhecemos João Vicente, ‘creative manager’ de uma empresa de marketing digital com sede nos Estados Unidos. É natural do Rio de Janeiro e reside em Lisboa há cerca de um ano e meio. A experiência enquanto nómada digital na Madeira começou há dois meses. Quatro diferentes alojamentos depois, a aventura termina na próxima segunda-feira, partilha, confessando que “é muito difícil ir embora”, tendo sido isso mesmo que o fez adiar o regresso por várias vezes. “Tinha previsto ficar cá durante três semanas e já passaram sete. Porque toda a experiência, com todas as pessoas que conhecemos aqui, tanto ao dividir alojamento como ao fazer caminhadas pelas levadas, cria vínculos muito bons. Nós chegámos aqui sozinhos, mas no primeiro dia já conhecemos uma quantidade enorme de pessoas”, conta, sendo um aspeto positivo que se acrescenta à boa surpresa que encontrou ao nível das medidas de segurança no combate à pandemia. Fora isso, “também temos atividades profissionais, e eu já participei em ‘workshops’ maravilhosos aqui, e aprendi coisas que, inclusive, estou a implementar na minha empresa. É algo muito bom que eu levo daqui e certamente irei passar todo o conhecimento que obtive para a minha equipa”, assegura. Apesar da amargura de ir embora, há o lado positivo de criar amizade com outros nómadas, nomeadamente a possibilidade de os reencontrar noutros destinos: “Pretendo agora passar o verão em Lisboa e sei que alguns nómadas também vão para lá. Depois, quando for permitido viajar com mais segurança, quero continuar a seguir viagem para outros países”, concluiu. A primeira experiência Numa área mais escolhida para descontrair, encontramos Dorota Piačekova e Peter Pisarčík. São naturais da Eslováquia, mas quis a circunstância que apenas se conhecessem na Ponta do Sol, o destino que ambos escolheram para a sua estreia no nomadismo digital. Na Madeira desde 1 de maio e 22 de março, respetivamente, conhecerem-se numa festa realizada na Estalagem da Ponta do Sol, tornaram-se amigos, como, aliás, acontece com toda a comunidade recetiva a participar nas imensas atividades lúdicas desenvolvidas todos os dias, habitualmente logo pela manhã - antes do horário de trabalho que nem todos têm, mas que é o mais comum -, ou ao entardecer. Trabalhadora a ‘full time’, Dorota possui um contrato que permite trabalhar remotamente em países estrangeiros, sendo esta a primeira vez que saiu do país para experimentar esta nova realidade, que a surpreendeu. “Cheguei há um mês, no dia 1 de maio, e tenciono ficar durante mais dois meses. Está a ser fantástico. Não quero voltar a trabalhar do escritório nem regressar àquela situação de viver no mesmo lugar durante um ano ou mais”, afirma a eslovaca que é ‘iOS developer’ numa empresa de segurança corporativa. Após um ano “presa em ‘lockdown’”, pôde respirar de alívio e realizar, na Madeira, uma imensa variedade de atividades, partindo dos convívios da comunidade na Ponta do Sol (em que “a poncha é fundamental”) até à escalada nas escarpas da Ribeira Brava. Durante a sua estadia, quer ainda fazer surf, canyoning e, no fundo, “tudo aquilo que conseguir”, sendo que na próxima semana estará com alguns membros da comunidade instalada na vila da Ponta do Sol a rumar até à ilha do Porto Santo por uma semana. Sair da zona de conforto É certo que a experiência de ser nómada digital não será para qualquer pessoa, como o reconhece Dorota, que soltou as amarras de casa para viver sozinha quando tinha apenas 17 anos: “Sei que algumas pessoas preferem ter a sua segurança e o seu círculo fechado de pessoas, mas acho que todas as pessoas deviam, pelo menos, experimentar, nem que seja para ter iniciativa de sair da sua zona de conforto. A experiência é perfeita e nunca nos sentimos sozinhos”. Com a experiência que tem vivido desde este mês na vila nómada, sente-se feliz, principalmente pelos “muitos amigos” que fez ao integrar a comunidade. Apesar de ainda ser desconhecido o seu próximo destino, estando a equacionar a hipótese de passar um mês nos Açores ou em Portugal continental antes de regressar a casa para estar com a sua família durante um ou dois meses, tem apenas a certeza de que a opção de trabalhar remotamente é aquela que quer seguir. “Sei que quero ir conhecer outros sítios. Talvez as ilhas Canárias, ou Cabo Verde. Vamos ver”. Peter, por sua vez, já está decidido a prolongar a sua estadia até ao mês de julho, “encantado com a comunidade” onde conheceu “pessoas muito interessantes” e até oportunidades de trabalho, uma vez que integrou um projeto profissional criado entre nómadas na Ponta do Sol. “É também a minha primeira experiência enquanto nómada digital e está a ser perfeita. A partir daqui, é para continuar à descoberta de outros sítios”, garante. Há lugar para ‘cães nómadas’ Ainda neste espaço, entre todas as surpresas que podemos descobrir, surpreendeu-nos o facto de encontrarmos alguém que trabalhava ao computador acompanhado pelo seu cão. Neste que é um segmento onde impera o desapego pelas coisas e pessoas, viajar pelo mundo com um animal não é tão difícil como se possa imaginar. Leo, um dos três cães existentes nesta comunidade, por ser pequeno, pode ser levado facilmente no avião. “Ele fica sempre muito contente por ver pessoas, adora toda a gente. Para além disso, nas esplanadas, por exemplo, recebem-no sempre bem e toda a gente cá é amigável com animais”, afirma Christos Bacharakis, de nacionalidade grega, que exerce a função de ‘senior code contributor programe manager’ numa empresa cujo trabalho é desenvolvido apenas remotamente. Pela facilidade em trabalhar a partir de qualquer parte, tem viajado pelo mundo, mas é a primeira vez que integra uma comunidade organizada, após ter recebido a sugestão por parte de um amigo. E encontrou “um paraíso”, com “muitas atividades e boa internet à disposição”, com pessoas com quem “se pode trabalhar ou apenas partilhar boas ideias”. Numa clara existência de um padrão entre todos os nómadas digitais que conhecemos, também Christos, que divide casa com sete outros nómadas na Ponta do Sol, tinha partida programada para o final deste mês, que irá adiar pelo menos uma semana, até regressar à Grécia para passar o verão a trabalhar em diferentes localidades do seu país de origem. Para Christos Bacharakis, vir para a Madeira foi também colocar-se à prova, estando a considerar a possibilidade de se tornar 100% nómada digital. Uma vez que constatou que “é possível ser produtivo estando por aí, até partilhando casa com sete pessoas”, pretende em breve passar três meses ‘na estrada’ por vários países do sul da Europa. “Se correr bem, irei desfazer-me da minha casa e tornar-me-ei oficialmente um nómada digital a tempo inteiro”, acrescenta, recomendando a experiência na Madeira a toda a gente que procura “muitas atividades em espaços exteriores, um clima excelente, e uma comunidade maravilhosa”. Os computadores começam a ser desligados a partir das 17 horas. O centro começa a ficar vazio e juntam-se grupos que, ou regressam aos seus alojamentos, ou optam por aproveitar as horas de sol restantes para participar em alguma das atividades agendadas, cujo programa é partilhado semanalmente com todos através de um canal na plataforma Slack. ‘Workshops’ no espaço do ‘cowork’, praticar yoga ou outro exercício físico junto ao bar e restaurante Maré Alta, dar um mergulho com o ‘Swim Club’ na praia da Ponta do Sol. Este é o sítio onde, na liberdade de escolha do espaço onde trabalhar, há um mar de oportunidades a todos os níveis. O mais difícil é ir embora.