Recorde a entrevista do novo líder do CDS ao JM

"Francisco Rodrigues dos Santos: CDS foi indispensável ao rompimento do ciclo do PSD na Madeira".  Este foi o título da entrevista do agora novo líder do CDS ao JM. As declarações de Francisco Rodrigues dos Santos foram publicadas na passada...

Recorde a entrevista do novo líder do CDS ao JM
"Francisco Rodrigues dos Santos: CDS foi indispensável ao rompimento do ciclo do PSD na Madeira".  Este foi o título da entrevista do agora novo líder do CDS ao JM. As declarações de Francisco Rodrigues dos Santos foram publicadas na passada quarta-feira, um dia depois de ter apresentado a moção aos militantes da Madeira.  Segue a entrevista na íntegra. Por que razão os militantes madeirenses do CDS-PP devem votar em si? O momento particularmente exigente que o CDS atravessa convoca todos os militantes, de Norte a Sul, do litoral ao interior, do continente às ilhas. O projecto de futuro que apresento ao partido é o ponto de partida para a indispensável recuperação da confiança dos nossos eleitores e é também um certificado de autenticidade que devolverá ao país o essencial do património do CDS: a âncora da direita no regime, a fronteira de todos os extremismos, o porto seguro dos valores da democracia-cristã. Por outro lado, as nossas propostas sobre o combate à desertificação, sobre a justiça ou a saúde, respondem fundamentalmente aos problemas das regiões mais desfavorecidas e isoladas e foca-se na necessidade de combater as assimetrias regionais, de que as ilhas são particularmente vítimas. Por fim, a reorganização interna que defendemos para o CDS promoverá a verdadeira proximidade e valorização de todos os militantes. Na era digital em que vivemos, faz cada vez menos sentido que a militância das nossas bases e dos nossos quadros esteja condicionada à proximidade ao Largo do Caldas, pelo que desenvolveremos um conjunto de plataformas e ferramentas que aproximará o partido e lhe permitirá funcionar verdadeiramente em rede.   Na sua moção “Voltar a acreditar – o manifesto de uma nova direita” não surge qualquer referência às regiões autónomas, apesar de constarem preocupações nomeadamente com a desertificação do interior do país e o excesso de concentração nas grandes cidades. Qual é o seu pensamento sobre as regiões autónomas portuguesas? As regiões autónomas, pela sua insularidade, têm sido particularmente prejudicadas pela ausência de políticas que incentivem a fixação das pessoas e das empresas nas regiões periféricas e pela cultura centralista do nosso regime. O desenvolvimento sustentado das ilhas, e do seu imenso potencial, exige, em primeiro lugar, o profundo respeito pela sua autonomia a par com um escrupuloso cumprimento, por parte da república, pela Lei de finanças das Regiões Autónomas. Por outro lado, a gestão dos recursos marítimos destas regiões tem de ser efectivamente partilhada com os seus governos regionais, acomodando os seus interesses e as necessidades especificas. A Universidade da Madeira, por sua vez, tem de ser dotada dos meios e da autonomia essenciais à afirmação do seu prestígio e competitividade, pois só através da oferta de um ensino superior de excelência e da criação de condições para a ele se aceder em igualdade de oportunidades, se podem combater os ciclos históricos de pobreza associados à falta de competências especializadas de que têm sido privadas sucessivas gerações. Ao nível dos transportes, as obrigações de serviço público impostas aos privados e o reforço do subsídio social de mobilidade têm de assegurar resposta efectiva às necessidades de ligação ao continente.    Neste momento, a Madeira é a única parcela do território português onde o CDS é governo, em coligação com o PSD, se consideramos apenas os governos das Regiões Autónomas e o da República. Como observou o processo eleitoral nesta região e as negociações pós-eleitorais que permitiram a criação da coligação? Naturalmente, com satisfação. O CDS mostrou-se indispensável ao rompimento do ciclo de hegemonia do PSD, que dominou a Madeira nos últimos 40 anos. A sua participação neste Governo mostrará aos madeirenses que o CDS é um partido de compromisso e de governo, que apresenta soluções claras, alicerçadas em valores constantes. Com total respeito pela autonomia dos órgãos regionais do partido, trabalharemos em estreita articulação com o CDS da Madeira para que o processo de reafirmação do CDS, aqui com acrescidas responsabilidades, encontre na sua participação neste governo regional, uma bandeira e uma prova de sucesso. Na sua moção, propõe que o “CDS deve defender, na política portuguesa, todos os cristãos perseguidos no mundo”, e que essa “deve ser uma tarefa urgente do CDS no plano nacional e internacional”. Como pretende executar esta medida? Defendemos uma política externa realista que procure conciliar os interesses materiais do Estado com imperativos morais. Reconhecendo os seus interesses materiais, Portugal deve defender a democracia pluralista, a dignidade humana, e contribuir para a construção de um mundo de paz, solidário e sustentável. Ora, o papel histórico de Portugal no mundo, designadamente na construção da civilização de matriz judaico-cristão, até pelo seu trabalho de evangelização dos povos, impõe ao CDS especiais responsabilidades na defesa desse legado. Para nós, a Portugalidade não é um anacronismo. Para isso, é fundamental que a representação externa de Portugal na ONU, na NATO, na UE, se empenhe na defesa dos valores comuns com os países a que nos ligam fortes afinidades históricas. Um desses valores é indiscutivelmente o da liberdade religiosa e de culto, e Portugal tem de estar na linha da frente no reconhecimento do estatuto de refugiado, designadamente desenvolvendo políticas equilibradas de apoio e acolhimento a quem é perseguido por causa da sua fé. No contexto europeu actual, vejo a defesa da liberdade de culto da religião Católica em especial como imperativo de defesa da nossa identidade e soberania, de salvaguarda do nosso acervo cultural, tanto físico como imaterial, e de salvaguarda do nosso património ético. No mesmo documento, assume recear o “domínio da Esquerda na Cultura, porque ela a usa como um simples instrumento no combate ideológico e a torna num repositório das suas narrativas”. Pode dar exemplos de como a cultura se tornou um repositório das narrativas da Esquerda? Há, infelizmente, vários mitos nesta área, mas estamos empenhados em desfazê-los. Em primeiro lugar, a esquerda apropriou-se da defesa da cultura – ou melhor, de uma certa ideia de cultura – reclamando para si a paternidade e, pior, o domínio, das políticas culturais, que assentam hoje mais nos seus agentes e na forma de os subsidiar do que na preocupação com as pessoas. Sucede que o desenvolvimento das sociedades só pode ser conseguido de uma forma livre, integral e solidária se for acompanhado por uma política cultural que, a par do realce da identidade cultural da comunidade, tenha por objectivo a promoção do primado da Pessoa, dos direitos humanos e da cidadania. A dimensão cultural é inata e transversal na natureza humana e é por isso que as políticas culturais têm de ser prioritariamente dirigidas a todas as pessoas, e não a nichos ou minorias, e muito menos aos seus criadores, que mais não são do que os veículos transmissores, em cada momento, da cultura de um povo. Por outro lado, a cultura, enquanto pilar e matriz histórica dos modos de vida das comunidades, não pode estar ideologicamente orientada ou pré-determinada, nem pode ser dogmaticamente distorcida em função das convicções políticas e revisionistas de grupos e facção. A defesa da cultura passa necessariamente pelo orgulho e defesa do nosso património, da nossa história, da nossa língua e do nosso legado no mundo. Por fim, se é lógico que a produção e o acesso cultural não podem depender exclusivamente de critérios económicos, é também evidente que não podem depender de uma lógica de “subsidio-dependência” dos poderes públicos, acertada de acordo com conveniências políticas ou proximidades ideológicas, tantas vezes sem qualquer reconhecimento ou adesão por parte dos verdadeiros destinatários das políticas culturais. Os exemplos de como a esquerda usa a cultura como veículo de difusão das suas convicções são abundantes: no revisionismo da História de Portugal e no que dele se encontra nos curricula académicos; no clima de promiscuidade em que o poder político vive com as redacções de certos órgãos de comunicação social; no combate às tradições culturais do mundo rural, de resto, principal modo de subsistência de muitas regiões;  na falta e transparência nos critérios de fomento e apoio à criação cultural, etc..   Uma das ideias para combater o despovoamento do interior do país previstas na sua moção é a existência de um choque fiscal. Quais os impostos que precisam ser mexidos e qual a expressão dessa diferenciação face ao litoral? É urgente combater, com políticas sérias e integradas, o despovoamento do interior, designadamente através da criação de um estatuto fiscal para o interior que discrimine positivamente quem decide viver ou investir fora dos grandes centros urbanos, reduzindo o IRS das famílias e o IRC das empresas, reduzindo o IMT e IMI dos prédios usados adquiridos para primeira habitação. Ma sé também necessário reforçar o investimento e a proximidade dos serviços públicos essenciais e deslocalizar a produção de bens e serviços que, pelo seu carácter altamente tecnológico, especializado ou diferenciado, podem ser prestados, sem prejuízo para o utente, a partir das regiões mais desfavorecidas. Propõe também que a atribuição dos ‘vistos gold’ seja circunscrita a investimentos efectuados em territórios de baixa densidade populacional. Não teme que desse modo o programa, criado pelo antigo ministro Paulo Portas, se torne menos competitivo? Creio que não, pelo contrário. O nosso território, designadamente no interior, tem imenso potencial, como o tem mostrado o crescimento a actividade turística fora das grandes cidades, e o reforço da atracção do investimento estrangeiro nestas regiões é um mecanismo eficaz de combater as desigualdades territoriais e de alavancar o crescimento económico das zonas mais desfavorecidas, favorecendo a criação de emprego e a fixação dos agentes económicos. A versão originária dos “Vistos Gold” foi lançada num momento muito particular da nossa economia, fez o seu caminho, mas teve o seu impacto muito circunscrito ao mercado imobiliário dos grandes centros urbanos e acabou, por isso, por gerar um conjunto de efeitos colaterais nem sempre equilibrados, que temos de corrigir. Se vencer a eleição, quais serão as suas primeiras medidas e como será a relação com o PSD e a direita? Os partidos à direita do Partido Socialista têm de ter a capacidade de apresentar aos eleitores soluções de compromisso e um verdadeiro de caderno de encargos comum que lhes permitam derrotar a esquerda, e isso, naturalmente, implica capacidade de diálogo e vontade de estabelecer pontes. Já tive oportunidade, sobre isto, de dizer duas coisas: a primeira é a de que não creio que esse debate deva excluir nenhum partido do espaço não socialista; a segunda é de que o CDS não pode desperdiçar o capital acumulado de diálogo com o PSD, que tem sido um parceiro preferencial e o interlocutor natural No entanto, a minha aposta é a de renovar, restruturar e reposicionar o CDS, devolvendo-lhe a esperança, a coerência e a credibilidade. Só com um CDS forte, em que se volte a acreditar, se poderá combater a esquerda.  Esse é o nosso caminho prioritário: o da nossa afirmação.